“Eu trato todos igualmente.”
“Sou bem racional e analítico, não deixo emoções tomarem conta.”
“Eu contrato por mérito e ponto final”

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essas frases de líderes no corporativo, aliás ouvi uma frase bem parecida semana passada e por isso quis fazer essa reflexão aqui. E confesso: toda vez que ouço, me impressiono. Não pela afirmação em si, mas pela falta de autoconhecimento e vulnerabilidade que ela revela.

Porque a verdade é simples: todos nós temos vieses inconscientes. É uma condição humana, não uma falha de caráter. Ninguém está imune, por mais consciente, treinado ou bem-intencionado que seja. Nosso cérebro cria atalhos o tempo todo, e esses atalhos moldam como percebemos, avaliamos e decidimos sobre as pessoas ao nosso redor, muitas vezes sem que a gente perceba.

E existe uma explicação para essa negação. A psicóloga Emily Pronin, de Princeton, cunhou o termo “bias blind spot”, o ponto cego do viés. Segundo ela, “conhecemos os pensamentos, sentimentos e intenções por trás das nossas próprias ações”. Isso significa que julgamos a nós mesmos pela INTENÇÃO que sentimos internamente, mas julgamos os outros pelo COMPORTAMENTO que vemos de fora. O resultado é que enxergamos viés com facilidade no outro, e quase nunca em nós mesmos, mesmo sem nenhuma má intenção.

Quando alguém me diz que não tem vieses, isso não me tranquiliza, pelo contrário, me faz suspeitar dessa pessoa. Porque essa negação é justamente o que impede a reflexão necessária para identificar e lidar com eles. Reconhecer que temos vieses não é uma fraqueza, é o primeiro passo para qualquer mudança real.

E aí fica a pergunta que considero mais importante: uma vez que você descobre o seu viés, o que você faz com ele?